sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Rei Pakal ainda vive




Palenque é um mundo mágico. Ainda que se passe pouco tempo por lá, é muito improvável sair como se chegou. Em três dias encontrei a reencarnação de Pakal, um curandeiro de 9 anos (1) e um sítio arqueológico incrível, que ainda sussurra baixinho vozes e histórias de uma civilização que durante três anos teve uma mulher como rainha, a Senhora Quetzal Blanco, antes de passar o trono para o filho, o famoso Pakal. Graças ao grande número de hieróglifos encontrados nas escavações arqueológicas de Palenque, iniciadas em 1773, é que se sabe tanto desta civilização maia que teve seu apogeu entre 600 e 800 d.c, onde viveram em torno de 50 mil pessoas. O Templo das Inscrições é a pirâmide mais importante da cidade, além da mais alta, tendo sido nela encontrada a tumba do rei Pakal. O corpo de Pakal esteve intacto por um milênio, quando então foi descoberto em 1952, por arqueólogos mexicanos. Infelizmente a tumba é fechada para visitação – também não sei se teria estômago para vê-la de tão perto – mas a reconstituição que foi feita para o Museu Nacional de Antropologia, situado no Distrito Federal, está impressionante. Encontraram o corpo de Pakal coberto com um mineral vermelho, tóxico, chamado Cinábrio, adornado com inúmeros objetos de jade. O sarcófago estava cheio de pedras preciosas. A máscara que cobria o crânio continha mais de 200 pedras de jades polidas e perfeitamente encaixadas na forma do rosto do governante. Nas mãos e braços, portava anéis e braceletes de jade, todos ainda incrivelmente conservados. A cor verde da pedra simboliza sua relação com a colheita do milho, o produto mais importante para as civilizações maias.

E no meio de todas estas minhas descobertas da misteriosa Palenque, encontro um cidadão de nome Pakal. Quando se apresentou, dei uma risada e lhe perguntei se era nome ou apelido místico. Então ele começou sua história. Disse que sua bisavó era bruxa e morava na região das ruínas de Palenque quando os primeiros arqueólogos chegaram e evacuaram a área para iniciar os estudos. Então, desalojada, teve os filhos ainda no México. Mas por difundir histórias e conhecimentos que às vezes não condiziam com as pesquisas oficiais da região, teve que fugir para os EUA. Ele nasceu na Califórnia e recebeu a alcunha de Pakal em homenagem a grande figura de Palenque. Segundo seus pais, ele seria a própria reencarnação do governante. Mas logo a família se mudou para o Senegal. De lá morou na Etiópia também. Acabou voltando para o México. Estudou arqueologia na UNAM. Dizia que estava ali pesquisando. “Sempre que entro no Templo das Inscrições e me ajoelho diante da tumba do rei choro descontroladamente. É algo maior que eu”. No final da conversa, me propôs um passeio. Queria me levar para conhecer a árvore que o rei descansava. Disse que era uma trilha de 40 minutos, mas que eu sentiria uma energia única. Ele mais me parecia um maluco de estrada, mas também não duvidei. Acabei não aceitando o convite. O arrependimento bateu forte depois.


Buraco da Fechadura

(1) Juanito tem 9 anos e apareceu cheio de energia no meio do café da manhã para nos ensinar tudo de medicina natural que tinha aprendido com seu falecido avô. Começou a falar e a mostrar folhas, sementes e frutos, todos curativos de alguma enfermidade humana. Não sossegou até levar uma bronca da mãe dizendo para ele ir estudar história e deixar os turistas tomar café em paz. Dissemos a senhora que nos preparava o café que ele não estava atrapalhando e ele ainda ficou mais uns minutos falando de seus conhecimentos naturais. Ao final, minha amiga Maíra muito impressionada com as propriedades de uma determinada planta lá que, segundo Juanito, curava diabetes e até câncer, exclamou: “Puxa, mas essa planta é milagrosa!” Ele respondeu ligeiro: “Milagrosa não, ela é curativa.” E saiu com seu livro de História do México com as imagens de Pancho Vila e Emiliano Zapata na capa, obedecendo a ordem de sua mãe. “Esse aí para aprender as coisas que não estão no livro é rapidinho, mas as coisas da escola é um problema!”

(2) Em Palenque se come e dorme bem e barato. Fiquei num quarto privado com banheiro compartido e paguei somente $100. Indico a região El Panchán para ficar, bem na entrada da zona arqueológica de Palenque. Cabanas Jungle Palace. Dentro desse reduto de maluco tem várias cabanas com bons preços e alguns restaurantes para servir a comunidade de viajantes cult-bacaninhas que se amontoaram na região. O restaurante Don Mucho é o lugar certo para o rango. Serviço de qualidade, comida boa e preços baratíssimos, além de uma variedade enorme no cardápio. A noite tem shows e apresentações de malabaris no local.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Guia Por onde Andei - Lacanjá Chansayab









Para visitar as deslumbrantes e magnifícas ruínas de Yaxchilan (1) e Bonampak (2) não caiam no conto da carochinha de que é melhor pagar um tour de Palenque. Não é verdade. Vale a pena uma parada na graciosa vila de Lacanjá Chansayab (3). Ela fica exatamente no meio entre as duas ruínas e você ainda conhece o povoado indígena que deu nome a maior selva do México, os Lacandones. Há mais de 20 anos a comunidade já recebe turistas, porém, deixam claro a relação peculiar com os mesmos. Sob um ejido extremamente organizado, os Lacandones são coerentes em suas atitudes frente ao turismo que há na região. Os descendentes mayas plantam, cuidam da terra, reciclam o lixo e preservam os trajes brancos que desde muito tempo se usava na região. Fotografias, só com autorização. Conversam somente o necessário. Não demonstram nenhum interesse em trocas de conhecimento. Cuidam do espaço e daquilo que a natureza lhes presenteou de maneira exemplar. Se dividem em grupos familiares, chamados de campamentos. Nos arredores da comunidade, cachoeira e riachos fazem a alegria da criançada que tampouco parecem aceitar de maneira suave a presença estranha dos estrangeiros. São cabanas na beira do rio, encrustrada no verde da selva húmida e quente de Chiapas. Ficamos no campamento de Vicente Paniáguas. Mas a indicação local vai para as mãos de fada da cozinheira Nuk e seu marido Chankin. Sempre com a presença do filho Es, preparam uma autêntica comida mexicana de qualidade a preço justíssimo, 55 pesos. O restaurante está no campamento de Enrique Paniáguas. Tudo é preparado na hora, saindo com gostinho de comida fresca .


Buraco da Fechadura



1 - Descoberta em 1882, Yaxchilan foi a maior ruína que conheci nesta viagem e de acesso mais difícil. Depois de alguns coletivos e uma hora de barco se chega na exuberante cidade perdida no meio da selva. Para visitar todas as edificações que estão disponíveis são necessárias trilhas de 15 a 20 minutos e muita disposição, devido ao terreno sinuoso. Entre as construções, se vê macacos, iguanas e tucanos. Ao caminhar pelas edificações, ouve-se os grunidos dos gorilas tão alto que é fácil confundi-los com jaguares, animal tão citado entre as civilizações maias, símbolo de força e poder. Mas não. São só macacos. Os sustos na selva são comuns quando se passeia por ruínas de mais de séculos e com histórias ainda tão misteriosas. O apogeu de Yaxchilán foi durante o longo reinado do rei Escudo Jaguar II, em 742.


2 - O mais impressionante de Bonampak sãos as inscrições coloridas. Incrivelmente preservadas, se pode ver detalhes dos desenhos em cores fortes no interior das edificações. As estelas também estão bem claras.

3 - Lacanjá Chansayab se localiza há 188km de Palenque. Indo pela estrada Federal 199, dobra-se no cruzeiro de San Javier, percorrendo-se mais 13km. A foto do lacandon Vicente Paniáguas em frente a árvore centenária não é minha. Retirei da internet. Foto de Rosa Ripoll.




domingo, 7 de agosto de 2011

Guia Por Onde Andei – Loma Bonita


Cascadas Las Nubes: Na real mesmo eu fiquei no povoado de Las Nubes, mas não valeu a pena. Para chegar aí, não faltam informações e indicações na pista. Mas o ouro mesmo está em Loma Bonita. Depois que você já está diante da queda principal no centro ecoturístico de Las Nubes, você cruza a cachoeira pela ponte e faz a trilha de 25 minutos que inicia a esquerda, descendo o rio. Pela estrada principal que contorna a selva lancadona - que sai de Comitán Dominguez e vai até Palenque, pede-se para descer no município de Maravilla Tenejapa. Daí pega-se uma condução até Loma Bonita. Se preferir, peça para o motorista da primeira condução lhe deixar no próprio cruzamento que sai da estrada principal e segue direto para Loma Bonita, você tomará a mesma condução vinda de Maravilla Tenejapa, só que esperará na estrada.

A cachoeira é conhecida como Las Nubes, mas o povoado que sabe acolher mesmo fica um pouquinho mais em baixo. Conheci Loma Bonita totalmente por acaso. Como em Las Nubes (onde estávamos acampados, porque as cabanas eram caríssimas) todo o vilarejo é testemunha de Jeová e não se pode vender cerveja nem cigarros. Eu, Maíra e Nuno fomos buscar umas chelas (1) nos arredores e nos deparamos com a incrível Loma Bonita. O povoado está também aos pés do mesmo rio de Las Nubes, só que mais em baixo. Formam-se praias incríveis, com pouca correnteza e com vista para outras quedas impressionantes.

Percebe-se claramente que os dois povoados não se dão bem. Em Las Nubes todos dizem que não existe mais nada depois da ponte (2), colocam inclusive cartazes no início da trilha dizendo ‘Não Passe!’. Quando chegamos em Loma Bonita, o depoimento de Aron e Rosier Morales nos fizeram entender melhor a situação. Faz 10 anos que a cooperativa de Las Nubes tem o mesmo presidente e o centro ecoturístico não é nada justo com os preços, nem possui serviços de qualidade. Ou seja, caro e ruim – apesar da beleza natural arrepiar o juízo de qualquer um. Mas em Loma Bonita não está diferente em beleza natural, afinal, é o mesmo lugar, só que um pouco mais abaixo do rio e possui pessoas muito mais buena onda. As cabanas de Rosier e Aron estarão prontas no final do ano, em dezembro. Situadas a 100 metros das praias de rio e a 10 minutos de trilha de lugares exuberantes para ver o túnel natural que a queda de Las Nubes passa antes de chegar nas praias, todas elas terão cozinhas e estarão disponíveis a preços justos. Ele nos recebeu com energia muita boa. Disseram que ali se podia beber cerveja sem problemas e provaram com simpatia, a receptividade do povo de Loma Bonita.


Tão longe de Deus e tão perto dos EUA

Por aqui não é raro conversar com alguém que já foi nas terras gringas para trabalhar e voltar para casa com um dinheiro a mais no bolso. Em uma prosa descompromissada Aron e Rosier, primos que agora puxam o empreendimento de Loma Bonita, nos contou de suas experiências. Tudo aquilo que sempre vi em filmes, aqui é comum. Sempre tem um agricultor, taxista, garçom que já cruzou o deserto de Chihuahua. Os primos ficaram por lá 3 anos. Mas agora só querem saber de Loma Bonita. Não se arrependem, juntaram dinheiro e agora querem fazer da vila mais um lugar interessante para visitantes e turistas. O percurso de Aron foi um pouco mais longo que o de Rosier. Um, tardou 6 dias; o outro 2 dias e uma noite. O investimento é grande. Aron pagou U$ 1.800 a um coitote (3) do estado de Sonora para levá-lo até o ponto estratégico de onde se inicia as caminhadas – leia-se fuga. São 5 litros de água por pessoa, alguns aromatizantes de suco em pó e muita coragem. “Eu tive sorte, o coiote que me levou não me assaltou, não fez nada. Tenho amigos que sofreram muito antes de começar a cruzar o deserto”. Caminham de noite e se escondem de dia em buracos feitos pelos próprios imigrantes no meio do deserto para se esconderem dos militares americanos. Depois que acaba a água, a estratégia é seguir o gado e tomar a água que eles encontram. “Geralmente é pouca e bastante suja, mas colocamos o pó aromatizante e dá para beber.” Sem muito medo, Aron falou sobre as caveiras e os ossos que encontrou no meio do caminho. “São ossos humanos daqueles que por ali passaram e morreram de fome, de sede, ou mesmo envenenado. Tem muitas cobras no deserto. É muito perigoso. Se você for picado por uma, não tem como sobreviver.” Mas Aron conseguiu chegar do outro lado, na terra prometida, e por lá ficou 3 anos. Foi encontrar o primo que já trabalhava lá como motorista e se virou bem. Juntou dinheiro e voltou para Loma Bonita. Agora só quer saber de terminar as cabanas na beira da praia de rio.

Buraco da Fechadura

(1) Chelas são nossas cervas. Depois de muitas, a noite fica um desmadre!

(2) Do outro lado da ponte, onde a comunidade de Las Nubes já não deveria mais apitar, encontrei uma senhora que vendia frutas, trazidas de outro povoado mais acima do rio. “Eles não gostam quando a gente vem vender frutas aqui. Mas a gente sabe que os turistas gostam e aqui já faz parte da área do meu povoado.” Foi ela inclusive que nos indicou Loma Bonita para comprar cerveja e cigarros. Ela estava apreensiva porque seu filho tinha ido acompanhar uns turistas pela mata e a angústia das mães ali na selva é grande quando se fala em gringos americanos por perto. Mais uma cena de filme. É comum o desaparecimento de crianças na região raptadas por gringos americanos que as levam para o tráfico de órgãos. “Semana passada desapareceu uma criança, foram pegar o gringo lá na frente, já na estrada, fugindo com o menino.”

(3) Os coiotes são mexicanos geralmente ligados ao narcotráfico que controlam o trânsito de imigrantes. Às vezes ajudam, às vezes exploram, às vezes se aproveitam de mulheres, às vezes muitas coisas...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Guia Por Onde Andei - Tziscao


Lagos Montebello: O parque é composto por 59 lagos completamente preservados, limpos e deslumbrantes, administrados pelos moradores da região que já tiveram que brigar com muitos gringos para que as terras dos arredores não fossem vendidas para os pinches (1)estrangeiros. Livre de resorts e do assédio turístico agressivo, a região é preciosa e vale ser explorada de uma maneira mais intensa. As agencias tradicionais de turismo só oferecem o tour saindo de San Cristóbal, em um passeio de um turno, passando rapidamente por somente 5 lagos. A dica é livrar-se das agências e fazer sua própria rota, ficando nas cabanas que os vilarejos oferecem, fazendo passeios com os próprios moradores que tem caminhonetes e te dão um serviço exclusivo, visitando os lagos que desejar. E, acreditem, sai bem mais em conta que pagar a agência e fazer tudo correndo, sem poder nem nadar nas piscinas naturais. A parada certa é Tziscao, vilarejo dentro do parque, que também dá nome a um dos lagos, na fronteira com a Guatemala. Vá de San Cristóbal à Comitan e pegue uma topic para a região dos Lagos de Montebello. Peça para descer na vila de Tziscao. No meio do caminho, vale um desvio de 9km para a ruína de Tenam Puente.

Quem nos recebeu foi Hector Morales Spinoza. O vilarejo tem aproximadamente 15 moradores que alugam cabanas. A de Hector fica na rua principal, cerca de 600m do lago Tzicao, 1km do Lago Internacional e 1,5 do Lago Chuj Kuichayil (pescado negro). Sem dúvida, foi um dos melhores lugares da viagem até agora. Ficamos 3 noites e 4 dias na região. A família de Hector nos recebeu com muito carinho, cedeu a cozinha para prepararmos nossa própria comida e dividiu um pouco do cotidiano deles conosco. O quarto para 3 pessoas com banheiro privado nos saiu a 400 pesos (dividam por 7 e vejam quanto sai em real), mas na última noite pedimos um desconto e ele fez a 300, 100 pesos por pessoa. Ele tem uma caminhonete e dois filhos. A esposa vende artesanato. Também por 400 pesos, ele nos proporcionou um dia incrível, passando por vários lagos e uma visita guiada à ruína de Chinkultik. Um de seus filhos, Aran (2), nos acompanhou nessa jornada e em outros passeios também, fazendo crescer nossa empatia pelo lugar e pela receptividade da família.

Sem falar nas histórias de quem nasceu, cresceu e viveu ali. Hector é um contator de estórias. Numa noite qualquer, enquanto conversávamos depois do jantar, nos contou sobre incidentes que ocorreram no vilarejo logo depois da insurgência zapatista, de 1994. Disse que "andavam em bandos, dizendo que vinham em nome do comandante Marcos, saqueavam nossas casas, tiravam nossas comidas, nossa colheita, tudo em nome da revolução. Mas não demorou muito para a gente entender que eram puros ladrões. Não estavam em nome do comandante Marcos coisa nenhuma. Ladrões que se utilizaram da revolução para se aproveitarem". Segundo ele, hoje a situação já está bem tranquila. Tanto no vilarejo, quanto nos arredores. "Depois de 94, se conseguiu muita coisa para os povos indígenas que viviam em situação dificil. Tem povoados aí que não tem nem estrada para chegar lá, era bem complicada a situação, mas Marcos conseguiu muita coisa. Foi construído um hospital indígena recentemente, perto de Las Nubes."

SERVIÇO: Cabañas del Centro Tziscao. Hector Morales Espinoza. Contato:+52 963 56 5 13 95


Buraco da Fechadura

(1) Pinche é uma expressão bem dificil de traduzir. Em geral é um xingamento, principalmente se vem acompanhada de pendejo na sequência. Ainda que pendejo possa ser usado como um cumprimento entre amigos íntimos. Enfim, acho que vou parar de tentar explicar estas expressões. Estão me saindo muito 'meia boca'.

(2) Como já disse antes, no México as crianças dominam o pedaço. Estão por toda parte. Em Tziscao tem alguns poetas mirins. Aran recitou um quando fomos nadar no lago que seu pai lhe levava para pescar. Ele e seus colegas adoram poesia.

Atrás de mi casa,

pasa sangre de conejo,

donde pasa mi novia,

no pasa ningún pendejo!

Tinha aprendido com o irmão. Outro dia no mercadinho, um pequenino também me parou, perguntou o meu nome e recitou um poema com Raquel. Muito amáveis são as crianças de Tziscao. Nosso contato com a comunidade foi tão bacana que me motivei a dar uma aula de capoeira para a molecada. A primeira da minha vida, vale ressaltar, mas foi incrivelmente gratificante e envolvente.

Santo com cara e coração de índio Chiapaneco




Antes de deixar a caótica San Cristóbal de las Casas e seguir para a Selva de Lancadona, decidimos visitar a cidade de onde todos os artesãos – sempre mulheres e crianças – que tentaram me vender algo diziam que vinham. San Juan de Chamula é, sem dúvida, o lugar onde a mistura religiosa entre a cultura do colonizador e as tradições locais se consumaram de forma mais mestiça. O povoado indígena sobrevive da agricultura e da venda de artesanato, principalmente em São Cristóbal de las Casas, onde o turismo é agressivo. O tzotzil (1) é o idioma mais falado – para muitos, o único. A língua do colonizador serve para tratar de ‘negócios’, seja com o turista ou com povoados vizinhos. Infelizmente, nas escolas só se aprende o espanhol, mas é clara a existência do idioma como mecanismo de resistência da tradição da cultura local. O tzotzil é ensinado em casa, de pai para filho. Não se escuta nenhuma criança falando o espanhol, a não ser com o estrangeiro. San Lorenzo de Zinacantan também está chido(2 ). Povoado indígena vizinho que guarda a tranquilidade total da vida campestre. Aqui, sim, sem quase nenhum sinal de turista na rua. Chamula, apesar de ser pacata, guarda sua veia turística em uma única rua, que se resume ao comércio e à curiosa e irreverente igreja.
Com traços indígenas em sua arquitetura, os rituais que lá se fazem estão longe de tudo que qualquer católico já viu. Aqui, a mestiçagem barroca se dá em seu termo mais complexo, onde santos vestem-se como índios, orações se encerram com tragos de posh (3) e coca-cola é objeto de oferenda dentro deste enorme templo que se chama igreja, que um dia foi ali construída por católicos colonizadores. Aqui, Deus escuta melhor as orações em tzotzil.
Do lado de fora, a placa escrita somente em espanhol - fato raro na cidade - é clara: proibido tirar fotos dentro da igreja. A presença do estrangeiro ali é constrangedora, mas é também uma maneira de fazê-lo deixar mais um dinheirinho para a sobrevivência daquele povo.
Do lado de dentro, milhares de velas acesas, um altar com vários santos vestidos de roupas indígenas, tecidos floridos para decorar o espaço, mato espalhado pelo chão da igreja, nenhum banco. Homens, mulheres e crianças oram e repetem o ritual. A presença dos turistas se dá de forma asquerosa ao invadir um momento tão precioso para aquele povo. Os olhares repressivos dos indígenas aos visitantes nos colocam, mais ainda, na posição de intrusos. Impossível não se sentir invadindo um momento singular da vida cotidiana daqueles mexicanos. Mas encontrei um lugarzinho discreto. Ali sentei e fiquei por, pelo menos, 40 minutos.
Três mulheres chegaram com seus sacos pretos, onde traziam as oferendas e os objetos para o ritual. Montaram as sequências de, aproximadamente, 50 velas aos pés de San Lucas, San Marcos e Santiago – todos vestidos com bordados indígenas locais – e iniciaram a oração. A jovem que vestia as comuns saias de lã de bode, blusa lilás e azul com bordados dourados e cabelos longos trançados, adornados com fitas e lã, puxou o pequeno ritual em tzotztil. Da bolsa, retirou uma garrafa de vidro cheia de posh, uma Mirinda de laranja e uma galinha branca viva e silenciosa.
A senhora, que estava do seu lado, parecia receber as orações que a jovem fazia. Retirou a galinha do saco e, em movimentos circulares, passou sobre a cabeça da mulher repetidas vezes. Acendeu a fileira de velas finas e compridas que faltava e orou por mais alguns minutos. Sobre o jogo de velas, também rodeou a galinha nas mãos da jovem. Depois, ergueu o animal para o alto e, como quem estica um elástico, agarrou o pescoço do bicho e o sacrificou. Cabeça para um lado e corpo para o outro. O bicho não emitiu um ruído sequer. Depois, o encostou ao lado das velas e continuou orando, enquanto o animal se debatia em seus últimos suspiros de vida. Depois, agarrou o objeto de madeira e soprou, fazendo o apito indígena cantar. A jovem retirou o casaco da senhora e fez a mesma coisa que fizera com a galinha: passou sobre a cabeça da senhora e sobre o jogo de velas, em movimentos circulares, como se evocasse uma espécie de benção para a dona daquela roupa. Pediu a ajuda da terceira mulher e salpicou um pouco da Mirinda sobre as velas, assim como uma dose, bem medida, de posh. Mais algumas frases em tzotzil e o arremate final. As três entornaram uma dose de posh e depois de algumas caretas, deu-se por encerrado o ritual. Parte das velas já se desmanchavam no chão da igreja e elas já conversavam entre si, num clima descontraído. Antes de começarem a recolher seus pertences dos pés daquele pequeno altar, riram um pouco, e logo deram espaço para os próximos rituais.



Buraco da Fechadura

(1) Tzotzil é o idioma indígena falado na região. Outro dia estávamos comendo em um dos restaurantes 'cult bacaninhas' da caótica São Cristóbal e Cláudia, uma pequena niña que nos insistia para comprar suas flores, dizendo que naquele dia não havia vendido nada, conseguiu nos emocionar. Depois de aceitar o nosso convite para sentar a mesa e comer um pouco de macarrão a bolonhesa ficou algum tempo calada, comeu, olhou para o céu e disse: "Daqui a pouco vai chover um pouquinho". Eu, Maíra e Nuno perguntamos como ela sabia, se o céu estava limpo e sem nuvens. Ela disse: "Porque sim, às vezes Deus chora só um pouquinho." Ficamos calados, com um nó na garganta e voltamos a comer. Em uma língua que ao invés de 'bom dia', seu povo pergunta 'como amanheceu seu coração?' espera-se muita sabedoria mesmo. E naquela madrugada choveu. Pouquinho, mas choveu.
(2) Chido está para os mexicanos como o legal para os brasileiros! Tudo para eles está chido. É muito bom ir descobrindo devagarzinho as expressões que identificam esse povo, orale! Cabrón é como o nosso 'de fuder', pode ser bom e ruim, depende do uso, assim como o chingón. Só vindo e ouvindo mesmo para entender!
(3) Aqui também se bebe cachaça. Aguardente de cana não é exclusividade nossa nem a pau. Aqui tem esse nome, posh. Mas é a 'merminha'!





"Dale, dale! Bien en su colita!"


- Ese ya está viejo, dejalo!

- Quiero ver sangre!

Entrei na arena daquele ginásio atrasada, escutando estes gritos e levemente tensa. Não sabia exatamente o que me aguardava ali dentro. Ao centro, um ringue, lutadores mascarados, um juiz e uma mesa de narradores. Entre o público, a grande surpresa: familias e famílias com suas crianças. A euforia da molecada já denunciava a diversão generalizada. Um programa bem mais leve do que eu imaginava que iria encontrar numa luta livre. Logo que sentei na cadeira que me cabia, tendo pagado o preço mais barato, comecei a entender de que não se tratava exataemente de sangue. A luta livre mexicana é um espetáculo. Uma mistura de acrobacia, humor, luta, circo, alterofilismo e performance. Os lutadores são personagens, heróis para a criançada que torcem fervorosamente pelos seus prediletos. As lutas são teatralizadas e brinca-se – com muita propriedade - com a arte de atuar. Entre um golpe e outro, a habilidade de fingir é colocada em xeque, o que apimenta mais o espetáculo, levando o público a gritos fervorosos.
Entre um copo de cerveja e outro, Alejandro, 34 anos, fanático por luta livre, assiste atento ao duelo da noite de um sábado qualquer em Tuxtla. No seu colo, o pequeno Davi brincava com seu ringue de plástico. A outra filha, Liliane, 16 anos, não nega: “Papai traz a gente desde pequenininho. Eu adoro. Só não gosto quando o juiz se mete. Ele sempre atrapalha as melhores lutas”. Quando questionei Alejandro sobre a possibilidade de qualquer incentivo a violencia, foi enfático: “a luta livre mexicana é cultura, faz parte do nosso país. É um esporte como qualquer outro. É humor, alegria, não violência. Eu diria que o futebol é até mais violento que a luta livre. Cresci assistindo e hoje tenho meus valores muito bem definidos. Trago minha familia toda.”

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